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Resenha: 1984 (George Orwell)

Toda leitura envolve dois contextos: aquele em que a obra foi escrita e aquele em que o leitor está imerso em seu presente. Mas se há uma obra mundialmente reconhecida por conseguir fazer um paralelo entre estes dois contextos, é 1984. O livro, escrito cerca de 15 anos antes de seu cenário distópico, dialoga muito com questões contemporâneas, permitindo debates e reflexões.

Li este livro pela primeira vez a quase 10 anos atrás, e foi a primeira das distopias clássicas que tive contato após ter me encantado pelo gênero com a trilogia Jogos Vorazes. Com o lançamento desta nova edição publicada pela Antofágica, decidi que havia chegado o momento ideal para uma releitura. A experiência foi completamente diferente, tanto por eu estar em outra fase da minha vida e em um contexto histórico diferente daquele da minha primeira leitura, quanto pelo fato de esta edição proporcionar novas percepções, com uma tradução diferente e ilustrações magníficas.

1984

SINOPSE

Em uma sociedade em constante estado de guerra contra outros países e contra os inimigos do sistema, cada cidadão deve viver sob a permanente vigilância das teletelas. Qualquer sinal de comportamento ou pensamento desviante da ideologia do Grande Irmão é severamente punido pela Polícia do Pensar.
Funcionário do Ministério da Verdade responsável por reescrever notícias e registros históricos, Winston Smith atua alterando o passado e, assim, o presente. Treinado para obedecer e calar, ele começa, no entanto, a questionar essa realidade. Seus atos de rebeldia contra o sistema, como ousar manter um caderno subversivo, parecem mínimos, até que ele se depara com a oportunidade de fazer algo maior e colocar sua vida em risco por uma sonhada mudança.
Publicado originalmente em 1949, este clássico de George Orwell é uma obra fundamental sobre opressão e totalitarismo e possibilita inúmeros paralelos com o momento que vivemos, 70 anos depois.

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1984

Esta distopia funciona como uma sátira da sociedade e do contexto do autor, que escreveu o livro no período entre o fim da segunda guerra mundial e o início da guerra fria. Em 1984 enxergamos uma sociedade totalitária, pautada no controle de ações, comportamentos e, sobretudo, da linguagem. O mundo encontra-se polarizado em 3 grandes regiões: Eurásia, Lestásia e Oceania. É nesta última que vive o protagonista Winston, um jovem adulto do partido que demonstra possuir muitos questionamentos a respeito da estrutura social em que está inserido.

Não era se fazendo ouvir, mas se mantendo são que se carregava o legado humano." p. 48

Os que não fazem parte do partido são chamados de proletas, e vivem à margem desta sociedade fascista. A exploração dos proletas sustenta a pirâmide social e aparece no livro como uma grande crítica à desigualdade. É nesse grupo que Winston acaba encontrando forças, ou ao menos colocando esperanças, já que logo de início ele afirma que "Se há esperança, está nos proletas."

Toda essa estrutura é atada pela (oni)presença do Grande Irmão, um vilão invisível que tem a cara estampada em cartazes que parecem seguir os transeuntes com os olhos, mas que demanda respeito e adoração por ser o líder da Oceania. Sua existência é quase surreal, mas é o que move este totalitarismo assim como a figura de Emmanuel Goldstein, o inimigo comum do povo a quem é atribuída a culpa de quase tudo o que há de ruim. Essa sensação onipresente se dá também através das teletelas, que são aparelhos presentes nas casas de todos os membros do partido e que não só exibem uma programação regida pelas lideranças, mas também observa os moradores 24 horas por dia. Nada escapa deste regime de controle total.

***

Após os primeiros capítulos, que vão ilustrando este cenário distópico narrado em terceira pessoa, vamos percebendo que há em Winston uma urgência pela rebeldia. As vivências do personagens são marcadas por simbologias, que remetem ao seu passado e ao imaginário do mundo antes de tudo aquilo. Ele faz um esforço para recobrar a visão de uma sociedade diferente, buscando entender se as coisas realmente melhoraram, como prega o partido, ou pioraram, já que ele percebe muitas incoerências nos discursos. 

"Quem controla o passado", dizia o slogan do Partido, "controla o futuro: quem controla o presente, controla o passado." E, no entanto, o passado, apesar de sua natureza inalterável, nunca tinha sido alterado. O que era verdade agora era verdade desde sempre e para sempre. Simples assim. Tudo o que se precisava era de uma série sem fim de vitórias sobre a própria memória. Chamavam isso de "controle da realidade". Em novilíngua, DUPLIPENSAR." p. 57

A tentativa do partido de anular essas incoerências está no duplipensar, uma prática que permite que coisas opostas coexistam e se cancelem. Muitos membros dessa sociedade incorporaram o duplipensar: eles sabem que passam fome, mas concordam com a afirmação de que o partido aumentou e muito a produção de alimentos. Sabem que ontem a Oceania estava em guerra com a Lestásia, mas acreditam quando o partido afirma hoje que essa guerra nunca existiu e na verdade sempre foi com a Eurásia. Porém Winston, tendo como função em seu trabalho exatamente a correção de textos que contradizem os novos posicionamentos do partido, começa a questionar tudo isso em sua mente e desejar fugir desta realidade.

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george orwell

É a partir de todos estes aspectos que a história se desenrola, e falar mais sobre ela seria estragar um pouco a experiência para quem ainda não leu. Há ainda muitas figuras importantes na narrativa que dividem com Winston a trajetória vivida nestas páginas, mas que deixo para que vocês conheçam durante a própria leitura. Sempre recomendei este livro e após esta releitura recomendarei ainda mais, pois a construção feita por Orwell é brilhante. É um livro para se ler grifando, refletindo e sobretudo lembrando que não devemos tolerar nenhuma forma de totalitarismo - independente do espectro político. 

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ISBN: 978-65-86490-16-9

Editora: Antofágica

Nota: 5/5 ⭐

4 Comentários

  1. Sempre quis ler esse livro e, apesar de ter comprado um exemplar no final do ano passado, ainda não o li. Uns dias atrás terminei uma leitura e ontem estava escolhendo a próxima e separei 2 opções: 1984 e Depois, que é o mais recente do Stephen King. Agora que acabei de ler seu post, decidi começar a ler 1984. Se os pequenos trechos e informações que você trouxe no texto já me deram o que pensar, imagino como será o livro. Vou começar a leitura hoje mesmo.

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  2. Essa edição está divina! Tenho uma mais antiga que comprei em um sebo! Livro muito atual...
    Abraços

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  3. Livro atemporal - passado, presente e futuro - coexistindo desde sempre, reescrito todos os dias.

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  4. A última compra que eu fiz foi justamente esse livro, mas a edição é outra, da Companhia das Letras. Fiquei curiosa por saber quem traduziu (vou pesquisar depois). Eu adoro esse livro e acho a leitura essencial para compreender certos mecanismos. Mas, eu confesso que sinto um pouco de desconforto com o cenário atual que se parece muito como o do livro.
    Você sabia que originalmente o título seria O último homem na Europa? Eu prefiro 1984 até por saber que ele (autor ou editor, não sei) apenas inverteu o ano em que o livro foi escrito. Isso me parece mais interessante e me diverte por pensar que tem gente que lê o livro apoiado na idéia de que a profecia não se cumpriu.
    A maneira como ele distribuiu o mundo, em três grandes estados totalitários me fez re-pensar o mundo geograficamente, até porque o terceiro mundo se mostra como exatamente é: um campo de batalha e conquista dos três. Outra coisa que me perturbou bastante foi o controle do pensamento, considerado crime e a limitação as frases de efeito... e aquele slogan que se eu pudesse tatuava na pele: “Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado”.
    Você tem razão, esse livro precisa ser lido e relido até para compreender-se como peça nesse jogo social de malucos...

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