Ler Os sofrimentos do jovem Werther mais de duzentos anos após sua publicação é um exercício de estranhamento. O romance que fez a Europa do século XVIII suspirar, vestir casacas azuis e amarelas e (supostamente) imitar o suicídio do protagonista hoje nos confronta com questões que Goethe talvez não tenha previsto, mas que estão latentes em cada página: o que há de tão fascinante e perigoso na figura de um homem que transforma a mulher amada em objeto de uma possessividade incontrolável?
Johann Wolfgang von Goethe escreveu este romance aos 24 anos, após uma temporada em Wetzlar onde se apaixonou por Charlotte Buff, já prometida a outro. A paixão real ganhou contornos trágicos quando um conhecido, Karl Wilhelm Jerusalem, suicidou-se por um amor não correspondido. Ao fundir as duas histórias, Goethe criou não apenas o fenômeno editorial do século, mas também um dos primeiros retratos da subjetividade moderna: aquele sujeito que não encontra lugar nas estruturas sociais e que faz de seu coração o único território.
A forma epistolar nos coloca dentro da mente de Werther. Acompanhamos sua alegria inicial, seu êxtase diante da natureza e da aparição de Lotte: “um anjo!”, escreve ele. Depois, a chegada de Albert, o noivo, e a lenta agonia de quem se sente excluído. Há cartas em que Werther ainda tenta conviver, reconhece as qualidades do rival, mas o veneno já se instalou. Quando ele discute com Albert e defende que a paixão extrema anula qualquer julgamento moral, já estamos vendo a rachadura por onde escorrerá toda a sua ruína.
Apesar da idade deste romance, há muitas problemáticas que, infelizmente, ainda hoje ganham reações semelhantes. Um camponês apaixonado por uma viúva que comete um crime passional é visto por Werther como um “infeliz” digno de defesa. O rapaz que colhe flores no inverno, louco, e que associa sua felicidade ao período em que esteve internado, revela que a lucidez pode ser pior que a insanidade. Esses personagens funcionam como variações do mesmo tema: o homem que não aceita o “não” e que encontra na criminalidade, na loucura ou no suicídio as únicas saídas.
E Lotte? Por quase todo o livro, a vemos apenas pelos olhos de Werther. É ele quem a idealiza, quem a transforma em “anjo”, quem deposita nela a salvação. Somente na seção final, quando o narrador se torna um “editor” onisciente, temos acesso ao que Lotte pensava. A ambiguidade é proposital, mas o desfecho mostra uma mulher que, embora comovida, nunca confundiu os limites.
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A literatura que Werther consome acompanha sua trajetória. A presença de Homero, Ossian, e da obra Emília Galotti aberta sobre a escrivaninha trazem uma camada extra de simbolismo dentro da narrativa. E falando em literatura, foi o próprio Goethe quem cunhou o termo Weltliteratur (literatura mundial), e Werther é um exemplo inaugural desse fenômeno. Traduzido para todas as línguas europeias em poucos anos, lido por Napoleão, vestido por jovens de Londres a Nápoles, o romance provou que uma história profundamente local podia tocar leitores em qualquer lugar. Mas essa universalidade tem um preço: por muito tempo, a dor de Werther foi celebrada, enquanto a de Lotte permaneceu silenciada.
Ler Werther no Brasil de hoje, onde o feminicídio mata centenas de mulheres por ano, exige um olhar diferente. Não se trata de condenar o livro, mas de enxergar nele um documento de como certas construções do amor romântico podem gerar violência. A ideia de “se não vou tê-la, ninguém mais vai” está presente em relatos do livro, sendo também parte da angústia de Werther, além de ser a mesma que move tantos agressores. Sendo assim, fica a pergunta: por que tantas leituras, por tanto tempo, se compadeceram apenas de quem sofre por não poder possuir, e não de quem é tratado como objeto dessa posse? Os sofrimentos do jovem Werther é um clássico porque, ao mesmo tempo que nos faz acessar uma subjetividade extrema, nos obriga a perguntar onde termina o amor e começa a obsessão. É um livro para ler com os olhos de hoje: sem deixar de sentir, mas também sem deixar de questionar
ISBN: 978-8525410443
Editora: L&PM
Nota: 3,5/5,0 ⭐

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