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Resenha: A autobiografia da minha mãe (Jamaica Kincaid)

Alguns livros têm o poder de nos fazer sair da zona de conforto, e isso pode acontecer por diversos motivos. No caso de Autobiografia da minha mãe, isso se deu através do estilo de escrita da autora. Neste livro não há diálogos nem capítulos, mas apenas páginas de texto corrido, quase como num fluxo de pensamento, mas que permeia diversos momentos do passado e do presente da protagonista.

SINOPSE

Poderoso, perturbador e emocionante, este romance de Jamaica Kincaid conta a história de Xuela Claudette Richardson, filha de mãe caribenha e pai meio escocês e meio africano, moradora da ilha de Dominica. Sua mãe morre no parto, e a garota precisa então encontrar seu lugar no mundo sem o auxílio materno.
Kincaid conduz o leitor pela vida de Xuela com extrema habilidade literária: da casa de sua infância, onde ela podia ouvir o canto do mar, e da sala com telhado de zinco onde mora como estudante, até sua casa da velhice. Seu mundo é intensamente físico, cheirando a frutas maduras, enxofre e chuva; e ferve com sua tristeza, sua profunda simpatia por aqueles que compartilham sua história, seu medo do pai e sua solidão arrebatadora.
Com solenidade aforística, Kincaid explora todos os paradoxos desta história extraordinária, que, conclui Xuela, é ao mesmo tempo o testamento da mãe que ela nunca conheceu, da mãe que ela nunca se permitiu ser e dos filhos que ela se recusou a ter.


a autobiografia da minha mae

São as palavras de Xuela que narram o livro, uma moradora da ilha de Dominica no Caribe que teve a vida marcada pela morte de sua mãe logo após o seu nascimento. Por muito tempo isso define Xuela, a garota sem mãe, a criança não deseja pela madrasta, mas que ainda recebe alguma atenção do pai. É uma vida difícil e repleta de desigualdades e assombrada pela perspectiva da perda.

Um dos temas centrais da obra é identidade e a busca por suas raízes. E buscar raízes muitas vezes significa revisitar tristezas do passado, tocando em pontos incômodos. Um certo egoísmo exala de Xuela, que é bastante centrada em si mesma, o que é justificável pelo fato de muitas vezes ela só poder contar consigo mesma. 

Passei a me amar por rebeldia, por desespero, porque não havia mais nada. Esse amor basta, mas apenas basta, não é o melhor: tem o gosto de uma coisa que ficou tempo demais na prateleira e estragou, e que revira o estômago quando é comida. Ele basta, ele basta, mas só por que não existe mais nada que ocupe seu lugar; não é recomendado." p. 38

O livro traz reflexões interessantes sobre diversos aspectos da vida, mas eu gostaria que alguns deles tivessem sido mais aprofundados. Gostaria, por exemplo, que o impacto que a educação teve na vida de Xuela tivesse sido mais explorado, já que ela é mostrada como uma das poucas meninas de sua comunidade que teve acesso à escola. Além disso, tendo em vista o título da obra e sua premissa, eu imaginava que haveria mais presença do imaginário da personagem sobre a sua mãe em suas palavras, mas isso que isso ficou de lado e que no fim das contas o livro é bem mais uma autobiografia da própria Xuela - o que não deixa de ser interessante. 

 A vida, é claro, não é um mistério, todos os que nasceram conhecem demais seu curso inteiro; o mistério é um truque inventado para os amaldiçoadamente curiosos." p. 75

Admito que não foi fácil ler este livro: mesmo sendo curto, o seu ritmo é bem lento e a leitura não fluiu muito bem. Demorei mais do que imaginava para finalizá-lo e sinto que, apesar de ter destacado diversos trechos brilhantemente escritos pela autora, não apreciei a obra por completo. Ainda assim recomendo para quem está buscando um relato de vida impactante, mesmo que ficcional, e também para quem, assim como eu, está buscando sair da zona de conforto com um livro.

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ISBN: 978-85-5652-110-1

Editora: Alfaguara

Nota: 3/5⭐

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