| Foto no lançamento do livro aqui em Recife, em 27/04/2025 |
Caetano é um "sangue raro", alguém cujo sangue possui propriedades mágicas. Durante uma ditadura militar instituída para eliminar bruxos e sangues-raros do país, Caetano é capturado e passa dez anos preso, sendo usado como ferramenta pelo regime para encontrar inimigos políticos. Quando finalmente consegue escapar, descobre um mundo devastado: as cidades tomadas pelas águas, a vegetação e a poluição corroendo o que restou, a população abandonada à própria sorte. É nesse cenário que ele cruza o caminho de Jorge, um bruxo perigoso, assassino, e sobretudo misterioso. A aliança entre os dois coloca Caetano diante de uma questão central: como seguir adiante depois de ter sido usado como instrumento de horror? Como não se transformar no monstro que sempre disseram que ele é?
A leitura começou de forma arrastada para mim. A narrativa demora a encontrar seu ritmo, e foi preciso insistir um pouco até sentir a tensão se consolidar. Mas quando a trama finalmente se fecha, o ritmo muda completamente. A partir de certo ponto, não tem mais como parar. O que mais me impressionou em Sangue raro foi a construção da ambientação. Lucas não se limita a descrever cenários; consegue transmitir a aura de cada espaço, a sensação física de estar naqueles lugares. O leitor sente o suor, a umidade, o cheiro e o sangue. A cidade do Recife, com seus morros, suas águas e seus becos, não é apenas pano de fundo: ela pulsa como personagem, com uma presença quase palpável.
Os personagens secundários também merecem destaque. Cada figura que cruza o caminho de Caetano carrega um passado que instiga a curiosidade, e se dosa bem as informações para que nunca haja excesso nem falta. São pessoas que habitam a narrativa com densidade própria, o que torna o universo do livro ainda mais rico.
Sobre a escrita de Lucas, preciso fazer uma ponderação honesta. É bonito ver expressões e construções típicas da região aparecerem na prosa. Há um esforço claro de enraizamento linguístico que valoriza a obra e aproxima o leitor local. Em alguns momentos, porém, o uso do regionalismo me incomodou um pouco. Não pela escolha das palavras em si, mas por uma certa artificialidade que eventualmente escapa, como quem assiste a uma novela e percebe o texto pensado para "soar" regional, em vez de simplesmente sê-lo. Felizmente, são exceções. Na maior parte do tempo, a inserção dos elementos pernambucanos acontece de forma orgânica, e é preciso destacar o cuidado de Lucas com a pesquisa. Sendo da Paraíba, soube captar e transpor para a ficção aspectos da cultura local com sensibilidade e respeito.
Sangue raro não é um livro leve. As cenas de violência são gráficas, incômodas, descritas sem pudor. O suor, a sujeira, o sangue escorrendo, tudo contribui para uma experiência de leitura que agride os sentidos. Mas há também o outro lado. Quando o amor aparece, seja entre pessoas, seja no amor pela liberdade, por uma comida simples, pelo carnaval, o impacto é igualmente forte, só que cheio de afeto. É essa dualidade que sustenta o romance: a brutalidade do mundo não apaga a possibilidade de beleza, e é na tensão entre esses polos que a narrativa encontra sua força.
ISBN: 978-6558812517
Editora: Nacional
Nota: 4,0/5 ⭐
Oii!
ResponderExcluirNão conhecia o autor e o livro, mas fiquei curiosa com a história! Preciso conhecer mais autores nacionais para ontem! Achei curioso com a premissa, não é algo que eu imaginaria ser retratado no Brasil.
Vou colocar na minha lista!
Beijos