Quando um dos maiores cineastas vivos decide revisitar o gênero que ajudou a defini-lo, a expectativa é inevitavelmente alta. Steven Spielberg, responsável por clássicos como Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), E.T. – O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005), volta a explorar os mistérios do universo e a existência de vida fora da Terra em Dia D (Disclosure Day, no original). O resultado? Um filme que, mesmo sem reinventar a roda, entrega uma experiência cinematográfica envolvente, divertida e com a marca registrada do diretor em cada frame.
Uma trama que se constrói no mistério
Um dos grandes acertos de Dia D está na forma como a narrativa se revela aos poucos. Entrei na sala de cinema sabendo apenas que o filme envolvia alienígenas, e talvez seja exatamente assim que ele funcione melhor. O roteiro, escrito pelo próprio Spielberg em parceria com David Koepp, não entrega tudo de bandeja nos primeiros minutos. Em vez disso, vai plantando elementos estranhos que despertam a curiosidade: um artefato misterioso que exige luvas para ser manuseado, uma jornalista estadunidense que repentinamente começa a falar russo com o marido durante o café da manhã, e por aí vai.
Conforme as peças se encaixam, percebemos que a premissa não é exatamente inovadora: uma megacorporação que controla há décadas informações sigilosas sobre contatos extraterrestres, enquanto um grupo rebelde tenta revelar tudo à população mundial. Sim, já vimos variações desse enredo antes. Mas tratando-se de Spielberg, até mesmo o clichê ganha contornos únicos. O diretor imprime sua assinatura cinematográfica de tal forma que a familiaridade da história nunca se torna um problema.
Ficção científica ou filme de ação?
Uma das percepções que tive durante a sessão foi a de que Dia D se comporta muito mais como um filme de ação com elementos de ficção científica do que como sci-fi puro. Do começo ao fim, somos presenteados com perseguições de tirar o fôlego, carros capotando, personagens se escondendo em situações-limite, e tudo isso executado com uma competência técnica que só um diretor do calibre de Spielberg poderia oferecer. Além disso, é impressionante como uma boa trilha sonora e uma direção de fotografia inspirada conseguem elevar um filme em 100x. Era cada toque de mestre nas cenas que você se pegava exultante apenas pelo que estava testemunhando na tela.
Personagens que soam reais
Um aspecto que me conquistou imediatamente foi a forma como os personagens são retratados. Nada de heróis infalíveis ou vilões caricatos em tempo integral (embora Colin Firth, como o rígido Noah Scanlon, entregue uma atuação com a dose certa de caricatura). Os protagonistas de Dia D soam como pessoas reais: enrolam-se com as coisas, assustam-se genuinamente, agem sem pensar direito e cometem erros crassos. Esse tipo de abordagem torna a narrativa muito mais crível, mesmo quando eventos extraordinários estão acontecendo.
Emily Blunt é, sem sombra de dúvidas, a cereja do bolo. Sua personagem, uma jornalista que começa a desenvolver habilidades misteriosas, funciona como fio condutor da história e também como representante do público na descoberta. Blunt aproveita cada momento em cena, inclusive abraçando seus dotes cômicos que remetem à sua icônica atuação em O Diabo Veste Prada. Josh O'Connor também está muito bem como Daniel Kellner, um dos personagens principais da trama, mas são as cenas com Emily que realmente brilham.
O elenco de apoio não fica atrás: Colman Domingo, Eve Hewson, Colin Firth e Wyatt Russell interpretam personagens que, de uma forma ou de outra, têm sua importância. Ninguém parece descartável ali, e isso é um feito e tanto para um blockbuster contemporâneo.
Suspensão de descrença necessária (mas recompensadora)
É claro que nem tudo se sustenta sob um olhar mais criterioso. A quase inexistente intervenção do governo estadunidense diante dos acontecimentos, por exemplo, até possui uma explicação dentro da trama, mas confesso que, para mim, ela não colou completamente. No entanto, Dia D é daqueles filmes que pedem (e merecem) que você acione a suspensão de descrença. Feito isso, a experiência se torna maravilhosa.
Mesmo com alguns efeitos de computação gráfica que deixam a desejar em momentos pontuais, o filme é visualmente muito competente. Spielberg e sua equipe criam composições que transformam cada cenário em um tabuleiro de xadrez onde os personagens jogam um perigoso jogo de gato e rato, e a câmera se movimenta de forma tão fluida e precisa que a maestria técnica se torna evidente tanto no nível intelectual quanto no emocional e físico.
Vale a pena assistir?
Definitivamente, sim. Dia D é um ótimo filme, divertido na medida certa e ideal para assistir com a família. Tem seus momentos de leve tensão e violência, mas no geral eu acho que agrada a todo tipo de público. Não vá esperando uma obra cabeça ou super inovadora, afinal não é essa a proposta. Trata-se de um filme de ação com ficção científica que entretém do início ao fim e, mais do que isso, convida o espectador a se render novamente ao deslumbramento que só o cinema de Spielberg consegue proporcionar.

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