A franquia Evil Dead/Morte do Demônio, iniciada em 1981 pelo então cineasta iniciante Sam Raimi (Trilogia do Homem-Aranha), oferecia um cinema de horror baseado na humilhação e na degradação dos corpos. Quanto mais a franquia avançava sob o comando de Raimi, mais exageradas e cartunescas se tornavam as situações alucinantes criadas pelos demônios para atormentar grupos de jovens adultos.
Com a saída de Raimi da direção, os filmes se afastaram desse tom cartunesco e passaram a abraçar uma abordagem mais séria, acompanhando a onda dos chamados "filmes de trauma" que Hollywood popularizou com produções da A24 e da Blumhouse. Isso significa que a franquia piorou? Não necessariamente. Se, por um lado, perdeu parte de sua natureza trash, por outro, tornou-se um espaço para a experimentação de novos cineastas, que passaram a utilizar a perversidade dos Deadites(demônios da franquia) para discutir dramas humanos sem abrir mão do horror grotesco e da violência gráfica. A Morte do Demônio (2013) abordava o vício em drogas; A Morte do Demônio: A Ascensão, os conflitos da maternidade. Mas onde A Morte do Demônio: Em Chamas se encaixa?
No filme, Alice (Souheila Yacoub) , uma mulher em luto, busca refúgio na casa isolada dos sogros após a morte do marido. O suposto conforto rapidamente se transforma em um pesadelo sangrento quando a família é possuída pelos Deadites, e a protagonista descobre que seus votos matrimoniais parecem se estender além da própria morte.
Confesso que os primeiros minutos de A Morte do Demônio: Em Chamas me deixaram desconfiado. O filme começa com uma criativa sequência de assassinato envolvendo dois jovens em um barco, mas a direção opta por maquiar a violência com cortes rápidos e uma montagem frenética que parece querer esconder, mesmo exibindo rapidamente, as imagens grotescas tão características da franquia.
Essa impressão permanece durante boa parte da primeira metade, a ponto de me fazer questionar se o longa estava com medo de abraçar de vez sua natureza mais insana. Além da presença de imagens de pontos aleatórios que mais parecem uma vontade da direção de captar cada referencial das cenas, do que de propor um olhar cinematográfico verdadeiramente pensado.
Aos poucos, felizmente, o filme revela sua verdadeira proposta e se torna uma das experiências mais sensoriais da franquia. A comédia natural da franquia é preservada em momentos de quebra de expectativas, em que uma situação naturalmente desconfortável, como um funeral, é interrompida por algum elemento externo, revelando um deboche com os eventos e a família em tela. E O ritmo frenético da abertura permanece, mas Sébastien Vaniček utiliza essa velocidade para transformar o horror em um verdadeiro filme de ação.
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Uma sequência envolvendo um carro, na qual um dos personagens tenta levar o pai ao hospital, sintetiza bem essa proposta. A cena é extremamente decupada, com uma enorme quantidade de planos que provocam desorientação durante a explosão de violência. Ao mesmo tempo, o filme utiliza a destruição daquele espaço minúsculo para libertar a ação. Quanto mais os sobreviventes resistem aos Deadites, mais mirabolantes se tornam as cenas de violência.
O plano-sequência também contribui para essa experiência sensorial. Além de organizarem melhor os acontecimentos, colocam o espectador no centro do caos. A casa vai literalmente desmoronando enquanto humanos e demônios travam uma batalha brutal, e acompanhamos uma personagem tentando sobreviver como se estivesse em um filme de guerra.
Há ainda momentos inspirados em que a fotografia acompanha a perspectiva dos personagens, ficando de cabeça para baixo junto com eles enquanto lutam desesperadamente pela própria vida. A imersão também é reforçada pelo excelente design de som, que destaca o barulho constante da destruição e passa a se deformar quando um dos personagens sofre danos na audição.
Infelizmente, o filme tropeça ao tentar expandir a mitologia da franquia. Tudo começa bem com a tradicional gravação explicando a origem do Livro dos Mortos, mas, aos poucos, os diálogos expositivos passam a repetir informações como se o roteiro não confiasse na memória do espectador.
O mesmo acontece com os flashbacks envolvendo o falecido marido da protagonista. O filme insiste diversas vezes em mostrar episódios de violência doméstica, enfraquecendo um pouco a força da interpretação de Souheila Yacoub, que transmite toda a dor de um relacionamento abusivo sem precisar desse excesso de flashbacks.
Felizmente, o longa consegue equilibrar drama e horror de forma que ambos se fortalecem mutuamente. O relacionamento conturbado entre Alice e a família do marido gera discussões tão desconfortáveis quanto qualquer manifestação sobrenatural.
O terror de A Morte do Demônio: Em Chamas não cria os conflitos daquela família; apenas revela a fragilidade das relações que já existiam. O sobrenatural faz emergir ressentimentos, expõe pensamentos cruéis e coloca à prova a coragem — ou a covardia — de cada personagem diante da necessidade de proteger o grupo.
No fim, a batalha de Alice contra os Deadites também funciona como um ritual de superação. Quanto mais enfrenta os demônios — e, simbolicamente, a família do marido —, mais se aproxima de romper definitivamente com o trauma de seu relacionamento abusivo.
A Morte do Demônio: Em Chamas chega como um novo capítulo da franquia que, embora pareça tímido em seus primeiros minutos, aos poucos se entrega a uma experiência intensa e imersiva. Um filme que nos coloca dentro da luta contra forças malignas que, como sugerem as cenas pós-créditos, estarão sempre à espera de alguém disposto a abrir novamente o maldito Livro dos Mortos.
NOTA: 3,5/5,0 ⭐


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