Arrasada após a morte trágica de sua melhor amiga, Gabriela descobre que ela deixou um presente de despedida inesperado: dez cartas com desafios para ajudá-la a superar o luto.
O filme parte de uma premissa simples e é bem direto nisso. Quanto mais a Gabi realiza um desafio, mais ela vai experienciando coisas novas que a fazem se reconectar com a vida, e sair de um estado depressivo deixado pela morte de Júlia, a sua melhor amiga. O problema é que o longa de Diego Freitas precisa correr para dar conta de todos os desafios, e se enrola ao retratar as relações humanas que Gabi vai ganhando.
De início, os diálogos sofrem com frases artificiais e chocantes para destacar o que os personagens tão sentindo, mas é tudo tão cronometrado e coreografado que faz parecer que os personagens já sabiam o que ia rolar na cena. Algo que a fotografia não ajuda ao imprimir um desfoque constante no cenário, deixando o elenco principal em evidência, e dando esse sentimento de artificialidade. O excesso de iluminação nos corpos dos atores acaba destacando a alta resolução do digital, e uma estética colorida que faz parecer que cada frame foi editado mil vezes no adobe lightroom para parecer bonito. Infelizmente, o resultado é um filme visualmente falso, o que não seria necessariamente um problema, se não dependesse tanto de uma relação mais realista entre o elenco e o cenário.
Até rola algumas sequências de devaneios que visam invadir a mente da Gabi, e explorar os seus traumas como pesadelos que invadem a realidade, mas são momentos tão pontuais que não parece que o filme realmente tá abraçando essa linguagem mais surtada. Além de que a própria relação de Gabi com o resto dos coadjuvantes soa, em sua maioria, bem superficial. A começar por sua falecida melhor amiga Júlia, que surge como um fantasma em sua mente e em flashbacks, mas não há nenhuma tentativa de humanizar a personagem para além do estereótipo de loira alegre good vibes. E o filme nem dá tempo de sentirmos a solidão da Gabi com essa perda, porque já no começo enfia uma amiga nova para ajudá-la a superar o luto. Por outro lado, eu até gosto como essa amizade nova rola, o filme acaba abraçando uma vibe de comédia de amadurecimento, com interações bem divertidas entre Gabi, e a personagem Lorena. Além de que essa amiga tem uma presença caótica que rouba os momentos que ela tá presente. Só é uma pena que quando vão tentar dramatizar a personagem, o filme não se aprofunda em nada da história dela e só se contenta no choque pelo choque.
E bom, voltando para os desafios, o filme consegue articular cenas isoladas bem fofas em que a Gabi tá interagindo com outras pessoas e ganhando amizades novas. A presença do casal de velhinhos é bem fofa, e eu gosto que não apenas deixam o casal para lá depois de concluir uma tarefa. Os desafios acabam se acumulando e a presença dos personagens vai se manifestando durante o resto do filme. Só é uma pena que o filme cronometre bastante alguns momentos para correr para resolver as dez tarefas, e chega um ponto em que algumas missões mais complexas, como a de se apaixonar, tem conclusões muito simplórias que só destacam a falta de camadas dos coadjuvantes. Acaba sendo uma visão muito preto no branco dos personagens. É a amiga legal fofa, é a amiga punk rock maluca, ou é o cara hetero top que não presta, ou é o cara legal intelectual que gosta de livros e não pega ninguém, mas que por conta de ser tão legal, ele é o par perfeito para a protagonista. O filme repete essa dinâmica até nos próprios pais da garota, que o pai é mais liberal e compreensivo, e quanto a mãe é bem rigida e não dá o tempo da menina se recuperar. E para resolver esse conflito com a mãe, o filme magicamente tira da cartola uma informação sobre ela que nem a Gabi, e nem o público, sabia, e que se em teoria, poderia reconstruir a relação delas, na prática só faz a figura da mãe ser uma baita de uma sem noção, que por conta do pouco tempo de filme, precisa virar uma figura materna decente para a filha.
No geral, “As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você” é um filme que usa da sua mensagem e seu conflito como escudo para não desenvolver os seus dramas, e acaba se limitando a ser só um recorte de vários momentos agradáveis e comoventes que, podem até gerar uma certa empatia, uma risada, mas por conta da falta de tempo, e interesse, falha ao gerar uma conexão genuína.


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