Quando vi o trailer desse filme em uma sessão de cinema, fiquei com o pé atrás. Me parecia só mais um daqueles filmes Oscar Bait que estava mais interessado em vender o seu valor de produção, suas atuações cheias de monólogos exagerados e pretensiosos, e seus astros do cinema para o Oscar. E no fim… este foi exatamente o caso de Digger, novo filme do diretor Alejandro González Iñárritu. Só que existe um porém…
Digger acompanha o homem mais poderoso do mundo que, após provocar um desastre ambiental de proporções globais, começa uma missão intensa para reparar os danos que ele mesmo causou e provar que é o salvador da humanidade. Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos, enquanto tenta recuperar sua credibilidade.
O filme de Iñárritu se separar em duas frentes, entre a sátira que busca retratar o ridículo e absurdo dentro dessas figuras de poder, e entre a farsa que vê a necessidade de retratar essas mesmas figuras de uma forma arrancar uma catarse emocional do público, em ver estes homens no poder caírem em desgraça, com muito humor. Quando Digger vai para a sátira, é quando mais acerta em seu tom.
O humor escrachado com quebra de expectativas, e uma escalada enorme de obstáculos que o personagem do Tom Cruise tem que enfrentar, faz com que o filme vira uma comédia de humilhação em que sempre tá surgindo um problema para o empresário maldito resolver. Os brancos no poder são retratados como vilões cartunescos de um filme do James Bond, e exaltam o absurdo de maneira bem convincente. E graças à variedade de cenários, o filme utiliza de objetos de cena para quebrar a fluidez dos diálogos e injetar uma grande carga de humor autodepreciativo. Às vezes funciona, como é o caso da pá no início do filme que o elenco vive tropeçando, e às vezes só soa aquele velho humor batido adolescente que a gente encontra nas cinco temporadas de The Boys, que está mais interessado em ser uma sequência eterna de frases chocantes.
E a própria catástrofe global presente no filme também é retratada como parte dessa satira maluca. Os efeitos do desastre natural são na maioria das vezes mostrados em telas, como se fizessem parte daquela fantasia maluca, e não um acontecimento real que afeta a vida das pessoas. Tal ilustração consegue fortalecer a perspectiva dos homens do poder, em que a falta de interação deles com estes desastres, considerando que eles tem dinheiro o suficiente para construir um bunker do fim do mundo, ou coisa do tipo.
Agora quando o Digger vai revelar aquilo tudo como parte de uma farsa maior, é quando a obra de Iñárritu cai. O filme tenta dramatizar a figura interpretada pelo Tom Cruise, como se quisesse fazer uma distinção entre ícone e homem, mas na prática só constrói uma humanidade superficial limitada por relacionamentos genéricos. Eu até admito que existe uma ideia interessante sobre interpretar estes homens terríveis, e qual o papel dessa representação em um mundo condenado por estes monstros da realidade. Levando em conta que um dos maiores sucessos da década foi justamente o filme Oppenheimer, que retrata o criador da bomba atômica e as consequências das suas ações. Porém, a forma que Digger reflete sobre isso acaba caindo em uma autoconsciência muito besta.
Os personagens falam sobre a importância de existir uma sátira assim, mas é tudo cronometrado para falar exatamente o que se espera de uma narrativa autoconsciente assim. Além de que a metalinguagem parece soar como uma falta de confiança no material, por acreditar que o público do cinema não vai comprar a piada que este filme é. Fazendo com que Digger queira parecer mais inteligente do que é, só por avisar que tem conhecimento de que tudo ali é pura caricatura.
Por outro lado, estas transições entre o real e o ficcional acabam beneficiando bastante a satira do filme, em que quando retorna para a encenação exagerada, o filme se torna ainda mais absurdo. Os cenários perdem mais da sua fisicalidade e revelam a estrutura para manter toda aquela ficção acontecendo, fazendo com que o teor dramático fique na mão dos atores. Meu momento favorito é quando a linha entre real e ficcional se cruza sem abandonar os dois lados do filme, e o Tom Cruise precisa equilibrar os dois universos para fazer aquela fantasia rolar.
Só é uma pena que depois o filme se estende até o momento que qualquer ambiguidade sobre os eventos fora daquele palco que o longa constrói seja jogado fora. Não existe espaço para pensar, pois o filme entrega todos os seus mistérios na cara, como se se orgulhasse em revelar que a magia do cinema é apenas uma mentira. Não que isso seja uma ideia ruim, mas não é como se o Iñárritu fosse o primeiro a pensar nisso.


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