Olá. Sou Henrique Conceição, professor de Língua Portuguesa, estudante de Teatro pela ETE Professor Alfredo Freyre, artista e pesquisador interessado nos aspectos expressivos, estéticos, linguísticos e formativos do teatro pernambucano. Minha trajetória está ancorada na educação, na literatura e nas artes cênicas, locais em que encontro diferentes possibilidades de criação e experimentação. Sejam bem-vindos e bem-vindas à estreia deste espaço de observação e diálogo sobre teatro no Janela Literária.
Toda cena deixa vestígios e aqui os escrevo.
Este primeiro texto trata de uma análise do espetáculo Serendiptia, do Grupo Quina. Especificamente a versão estendida da peça, não aquela versão curta apresentada no Janeiro de Grandes Espetáculos de 2026.
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| Cena do espetáculo Serendiptia — Grupo Quina (foto: Henrique Conceição) |
a mor·fo·lo·gi·a de um es·pe·tá·cu·lo
Meu primeiro contato com o termo serendipidade ocorreu por meio do Instituto Moreira Salles, que mantem em seu site sessões com programações musicais, documentários e podcasts. Para o dicionário Michaelis:
serendipidade (se·ren·di·pi·da·de)
sf
1 O dom de atrair sorte.
2 Essa sorte atraída.
O termo em português, dicionarizado a partir de Millôr Fernandes, é originário do inglês serendipity, um neologismo cunhado em 1754 por Horace Walpole para nomear a faculdade de descobrir acidentalmente coisas boas pelas quais não se estava buscando. Algo não previsto, mas que veio a calhar. Aptidão. Argúcia. O neologismo baseia-se a outro termo, Serendip ou Serendib, que possui ocorrência linguística na obra “Os Lusíadas” para nomear um antigo lugar chamado Taprobana — que tornou-se Ceilão e o que hoje é o Siri Lanka. Também aparece em um conto persa chamado “Os três príncipes de Serendip”.
Esse palavreado linguístico todo é porque assisti ao espetáculo de animação do Grupo Quina, “Serendiptia”, dia 30 de outubro, na ETE Professor Alfredo Freyre. Em cena, Chinchin, Jopy, Nãni, Ílo e Rãn, cinco criaturas do planeta homônimo ao título são condenadas a vagar pelo espaço em órbita pelo resto de suas vidas, até que a nave do grupo se choca contra um disco dourado. O objeto é uma referência a um dispositivo real a bordo da sonda Voyager que possui 115 a 122 imagens da Terra, saudações faladas em 55 idiomas (incluindo uma gravação em português com a frase “Paz e felicidade a todos”), além de sons da natureza e músicas de Bach, Mozart e Chuck Berry. Após o ocorrido, as criaturas caem no planeta terra.
Aqui, o grupo grafa o nome do planeta natal dos personagens intergalácticos como Serendiptia, o que não é uma palavra dicionarizada, mas um neologismo em paralelo à origem do anglicismo inicial, criação do espetáculo. Consideremos serendip- como a raiz da palavra serendipidade: ao adicionar ao vocábulo o sufixo -ia, o resultado mostra uma derivação sufixal que culmina na formação de uma palavra que soa crível para o nomear um planeta/localidade, visto que o uso desse sufixo é comum a nomes de lugares e/ou países, como Sérvia, Eslovênia, Lusitânia.
A lógica na construção do nome é válida por dois aspectos: 1) é importante para a dramaturgia da obra, considerando que os personagens vêm um planeta que o substantivo próprio deriva da ideia de encontrar algo sem intenção; e 2) pelo contexto intergaláctico, o termo soa como uma palavra “alienígena”, algo não familiar à língua terrestre. Há, assim, uma coerência inevitável.
o te·a·tro de a·ni·ma·ção
Serendiptia apresenta um teatro de animação que combina os corpos dos atores e atrizes com os corpos dos bonecos. Trata-se da técnica Humanette, também chamada de “boneco vivo”, em que há um fantoche sendo conduzido por um marionetista que usa uma parte do corpo para compor a forma física do fantoche. Em Serendiptia, o corpo do boneco é extremamente menor em comparação ao marionetista e o compartilhamento corporal ocorre através da cabeça do/da ator/atriz. Os braços são manipulados por meio de hastes conduzidas pelos/pelas atores/atrizes. Para manipular os pés, como no caso de ações que demandam movimento específico (andar, pular, chutar, correr), também é necessário o controle do marionetista.
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| Cena do espetáculo Serendiptia — Grupo Quina (foto: Henrique Conceição) |
O Teatro de Bonecos propriamente dito não é novidade para o público, especialmente o pernambucano (e nordestino) que possui contato com essa linguagem artística a partir da cultura popular. As primeiras manifestações do Teatro de Bonecos popular no Nordeste remontam ao início do século XIX em Pernambuco. No livro “Travel in Brazil”, de 1816, Henry Koster, fala da assistência de um “puppettheatre” (Teatro de Bonecos) no contexto de uma festa religiosa realizada em uma localidade no norte de Olinda (BROCHADO, 2018). Ademais, a mais antiga referência do termo Mamulengo é datada de 1889 e está em um verbete no Dicionário de Vocábulos Brasileiros, do Visconde Beaurapaire Rohan, de 1989.
Espécie de divertimento popular que consiste em representações dramáticas, por meio de bonecos, em algum palco alguma coisa elevado. Por detrás de uma empanada, escondem-se uma ou duas pessoas adestradas, e fazem que os bonecos se exibam com movimentos e fala […] (p.86).
Grupos bonequeiros, como Mão Molenga, Companhia Artística Mamulengos e Catrevagens, Grupo Scenas, Mamulengo Água de Cacimba; mestres, como Valdeck de Garanhuns e Antero, e tantos outros nomes importantes dessa vertente artística fazem parte da linguagem teatral de bonecos manipulados e são imensuráveis para a cultura brasileira.
O que chama atenção no espetáculo Serendiptia é a técnica utilizada e bem dirigida. Embora relato do elenco, em roda de conversa após o espetáculo, aponta que a referência inicial da proposta foi o teatro de bonecos francês — a partir do trabalho de Philippe Genty — , o uso bem executado das Humanettes dialoga e contribui com a prática bonequeira já citada aqui.
Para além, o elenco utiliza como artefato vocal de construção e caracterização das personagens grammelot ou blablação, técnica em que o diálogo se desenvolve a partir da construção de uma língua estranha. Geralmente, cenas que partem da escolha de uso dessa técnica não será compreendida através da fala, mas sim pelo tom de voz, pela intensão e pela forma de expressão que as construções sintáticas são projetadas. Entretanto, a escolha do espetáculo reside na ideia de mesclar/variar propositalmente a blablação, de forma que as frases possam soar compreensíveis (até certo ponto). É interessante destacar esse aspecto de Serendiptia, pois dialoga harmonicamente com a ideia dramatúrgica: a) como se tornar compreensível sem ser cansativo para o público?; e b) como representar um padrão de linguagem para seres que não são terrestres sem cair na mesmice? Para ambas reflexões, respostas positivas! As escolhas foram bem aplicadas e, em determinado ponto do espetáculo, o espectador torna-se fluente (ou quase) como interlocutor da relação discursiva que se estabelece no palco entre os personagens (juro que ouvi um chamando a outra de rap*riga rsrs).
Todo o trabalho de encenação com os bonecos colhe risadas do público, mas se engana quem acha que o espetáculo se resume a “fazer graça com bonecos de cabeça desproporcional ao corpo”. Em dado momento da história, personagens perdem o “corpo” de boneco e assumem a forma humana. Esse gesto de transformação frente ao público torna a simbologia por trás interessante, retratando uma humanidade encontrada, em referência ao conceito de serendipidade, por quem nem ao menos procurava. Resta saber se essa passagem seria uma conquista, uma perda ou ambos. Fica para o público pensar nessa ambiguidade entre ganhar humanidade e abrir mão de suas origens, sua identidade.
Daí em diante há outro trabalho de atuação a ser feito: a comédia física da tentativa de uso do corpo, sendo a primeira delas ficar de pé. A cena passa a ser contada a partir de ações maiores (considerando as novas dimensões corporais assumidas pelos personagens), com piadas em movimentos exagerados, quedas, farsas… tudo muito bem dirigido em partituras corporais. Cada personagem apresenta seu próprio eixo de movimento que, em conjunto, contribui para uma espacialidade e composição de palco incrível. Destaque, aqui, para a desenvoltura, trabalho corporal e repertório de Larissa Pinheiro.
o pla·ne·ta ter·ra vis·to por ou·tros
A ideia de uma técnica que apresenta um corpo híbrido, meio boneco e meio gente, é uma perfeita metáfora para retratar seres que se estabelecem entre dois mundos: em contexto, Serendiptia e o Planeta Terra. E o que choca, ao mostrar em cena o primeiro contato com a Terra, é a forma escolhida pelo Grupo Quina ser justamente a que critica a relação entre a vida humana e seu meio: o lixo.
Essa escolha gera uma quebra de expectativa no público (sem julgamento de valor se boa ou ruim, mas sim necessária!) e insere a obra em um novo lugar: o lugar da crítica, da esopia, da reflexão. Ganha um q de seriedade e transforma a peça em algo ainda maior do que já se mostrou.
Em mim, a pergunta que fica diz respeito a quem estava sendo julgado/criticado. O planeta? O ser humano? Ou o olhar de quem chega? Sim, o olhar de quem chega também pode sofrer uma crítica. Pensemos: tanto para se ver no planeta e os seres intergalacticos direcionaram o olhar justo para isso? Deixo claro que não defendo essa ideia! O que me atingiu foi a crita à humanidade mesmo, mas não deixo de levantar essa possibilidade objetivando entender até onde meu olhar se encontra na relação público-obra teatral.
O que reforça ainda mais a visão que fica é a ironia na apresentação do disco dourado e a relação entre o que a humanidade mandou ao espaço pelo disco da Voyager (músicas, saudações em línguas diversas, o riso de um bebê) e o que os visitantes encontram ao pousar. O contraste entre a imagem ideal da Terra e a realidade é o bater do martelo para a crítica tecida no espetáculo.
No fim, foi necessário que Chinchin, Jopy, Nãni, Ílo e Rãn, seres de outro planeta, nos mostrassem o que por alguns momentos deixamos de enxergar.
O que o espetáculo provoca?
Risadas. Reflexões. Contato com técnica teatral Humanette.
O que poderia ter sido melhor explorado?
Ritmo cênico. Encadeamento das cenas.
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Cena do espetáculo Serendiptia — Grupo Quina (foto:
Henrique Conceição)
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Al·gu·mas re·fe·rên·ci·as
BEAUREPAIRE-ROHAN, Henrique de, Visconde de. Diccionario de vocabulos brazileiros. Rio de Janeiro: Impr. Nacional, 1889. 147 p. Disponível em: http://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/221706. Acesso em: 01 nov. 2026.
BROCHADO, Izabela. Teatro de Bonecos Popular do Nordeste: história e histórias. Móin-Móin: Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas, Florianópolis, v. 1, n. 13, p. 28-[página final], 2015. DOI: 10.5965/2595034701132015028. Disponível em: https://periodicos.udesc.br/index.php/moin/article/view/12221. Acesso em: 31 out. 2026.
CHANONAT, Michelle. Humanette ou kokoschka : quand la marionnette prend la grosse tête. Portail des arts de la marionnette. Montréal: Association québécoise des marionnettistes, 13 jul. 2026. Disponível em: https://marionnettes.quebec/portail-marionnette/article/humanette-ou-kokoschka-quand-la-marionnette-prend-la-grosse-tete/. Acesso em: 01 nov. 2026.
FERNANDES, Millôr. Fotogramas: Serendipidade. [S.l.]: Instituto Moreira Salles, 2014. 1 vídeo (2:12). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=l6_Nw4l1bUc. Acesso em: 01 nov. 2026.
FLOPPIENNCO. Música: René Aubry. Concepção: Philippe Genty. Intérpretes: Christian Hecq, Alice Osborne e Scott Koehler. [S.l.]: René Aubry, [2008]. 1 vídeo (1:55). Publicado pelo canal René Aubry. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uJRwRsvTn0w. Acesso em: 1 nov. 2026.
GRUPO QUINA. Grupo Quina [@grupoquina]. [S.l.]: Instagram, [2026]. Disponível em: https://www.instagram.com/grupoquina/. Acesso em: 31 out. 2026.
HUMANETTE. In: UNIMA. World Encyclopedia of Puppetry Arts (WEPA). [S.l.]: Union Internationale de la Marionnette, [s.d.]. Disponível em: https://wepa.unima.org/en/humanette/. Acesso em: 31 out. 2026.
KOSTER, Henry. Travels in Brazil. London: Printed for Longman, Hurst, Rees, Orme and Brown, Paternoster-row, 1816. Disponível em: http://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/17982. Acesso em: 2 nov. 2026.
NASA. Voyager 2: first to visit all four giants. NASA Science, [S.l.], 5 dez. 2017. Atualizado em: 28 set. 2026. Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/voyager/voyager-2/. Acesso em: 2 nov. 2026.
NASA. What are the contents of the Golden Record? NASA Science, [S.l.], 9 abr. 2024. Atualizado em: 3 out. 2026. Disponível em: https://science.nasa.gov/mission/voyager/golden-record-contents/. Acesso em: 31 out. 2026.
SERENDIPIDADE. In: MICHAELIS. Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos, [2026]. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/Serendipidade/. Acesso em: 1 nov. 2026.

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