Janela Literária

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Resenha: O apanhador no campo de centeio (J. D. Salinger)

Há livros que fazem parte de nossas vidas antes mesmo de lê-los. É o caso de O apanhador no campo de centeio, do qual eu ouvia falar desde a adolescência, sem nem saber sobre o quê ele tratava. O título me remetia a algo bucólico, com vibes de arcadismo... Mas nossa, como eu estava enganada! As vezes criamos umas ideias nada a ver com a pouca informação que temos, não é mesmo? Não é a toa que o livro é referenciado em As vantagens de ser invisível: assim como a obra do Stephen Chbosky, este clássico trata da adolescência de um garoto deprimido. Nesta resenha buscarei comentar um pouco desta história tão inovadora para a época e que inspirou tantas outras.

livro o apanhador no campo de centeio

SINOPSE

É Natal, e Holden Caulfield conseguiu ser expulso de mais uma escola. Com uns trocados da venda de uma máquina de escrever e portando seu indefectível boné vermelho de caçador, o jovem traça um plano incerto: tomar um trem para Nova York e vagar por três dias pela grande cidade, adiando a volta à casa dos pais até que eles recebam a notícia da expulsão por alguém da escola. Seus dias e noites serão marcados por encontros confusos, e ocasionalmente comoventes, com estranhos, brigas com os tipos mais desprezíveis, encontros com ex-namoradas, visitas à sua irmã Phoebe -- a única criatura neste mundo que parece entendê-lo -- e por dúvidas que irão consumi-lo durante sua estadia, entre elas uma questão recorrente: afinal, para onde vão os patos do Central Park no inverno? Acima de todos esses fatos, preocupações e pensamentos, paira a inimitável voz de Holden, o adolescente raivoso e idealista que quer desbancar o mundo dos "fajutos", num turbilhão quase sem fim de ressentimento, humor, frases lapidares, insegurança, bravatas e rebelião juvenil.



folha de rosto o apanhador no campo de centeio

Em um cenário nova-iorquino, acompanhamos em primeira pessoa a narrativa do Holden, um adolescente entediado, descontente com a vida e com as pessoas a sua volta. Um inconformado, que mais uma vez acabou de ser expulso do colégio interno em que estuda e precisa lidar com esta situação.  Em uma jornada de poucos dias, Holden circula pela cidade usando o tempo que tem antes de sua realidade ser transformada por essa notícia que logo logo chegará aos seus pais.

Os incômodos de Holden são muitos, e podem chegar a parecer irritantes se não nos colocarmos no lugar do personagem. Há coisas que parecem besteira, mas que na cabeça de um adolescente pode ser de uma magnitude muito maior. Por outro lado, há também nos pensamentos de Holden críticas pertinentes a respeito da estrutura social e mesmo ao capitalismo: o livro chegou a ser proibido por alguns anos nas escolas dos EUA, sendo considerado "antiamericano". As abordagens feitas por J. D. Salinger através de Holden foram revolucionárias para a época, já que até 1951 a literatura não costumava retratar adolescentes, inspiraram muitos movimentos jovens e continua sendo uma referência para autores contemporâneos que escrevem sobre a juventude. 

O que me derruba mesmo é um livro que, quando você acaba de ler, você queria que o escritor fosse teu amigão de verdade, pra você poder ligar pra ele toda vez que desse vontade". p. 27

Numa linguagem simples, repleta de gírias, a narrativa demonstra também as fragilidades de Holden. Suas inseguranças são pautadas nas experiências que ele já viveu, que o fazem ver quase tudo a sua volta como falsidade, como uma encenação. O personagem chega a ter aversão de filmes, pois não suporta ver o fingimento dos atores e atrizes. E neste turbilhão de pensamentos ele tenta encontrar algum sentido na vida que está vivendo.

citacao o apanhador no campo de centeio

O livro possui gatilhos pela violência psicológica que apresenta. É por alguns considerado um livro perigoso, tendo ele sido citado por assassinos notórios como Mark David Chapman e Robert John Bardo. Em biografia sobre o autor J. D. Salinger, David Shield e Shane Salerno afirmam que "se você lê o livro motivado pela carência ou desespero, vai interpretar a antipatia de Holden pela cultura como uma licença para matar. Nas mãos erradas, do modo errado, a fúria emocional do livro pode se tornar um indosso para expressar sua aversão aos falsos por meio da violência."(Referência: Mell Ferraz) Além da própria atitude de Holden, o livro também contém outros temas sensíveis, como prostituição, abuso de drogas lícitas e assédio sexual. 

Apesar de toda a polêmica envolvendo este clássico adolescente, eu diria que ele remete a todos nós, principalmente quando consideramos a "saga" do retorno ao lar. Essa necessidade de retornar a um lugar familiar pode nos acometer em diversas fases da vida, de diferentes formas. Não é a toa que este, que é o único romance de Salinger, tenha se tornado um livro tão importante na literatura mundial: através da jornada de Holden é possível refletir sobre muitas questões internas que, apesar de difíceis, precisam ser discutidas. 

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Edição em inglês em oferta (R$23,63)

ISBN: 978-65-80309-03-0

Editora: Todavia

Nota: 4/5 ⭐

6 Comentários

  1. Caramba, eu também sabia desse livro e pelo nome parecia realmente bem bucólico e fui enganada também kkkk

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    1. hahaha, mais uma para o clube dos enganados pelo título

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  2. No fundo todos nós nos perdemos as vezes e precisamos "voltar para casa", seja de maneira física ou emocional. Fiquei com muita vontade de ler o livro!

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  3. Apesar de nunca ter lido O Apanhador no Campo Centeio esse título sempre me remeteu a algo que explora uma saúde mental fragilizada, só não sabia REALMENTE o contexto... Achei interessantíssimo como o autor aborda as questões do personagem, principalmente nisso de poder ser um gatilho forte dependendo do estado de quem lê... Na real, qualquer temática pode ser pesada pra alguém, mas nesses caso piora, né.
    Fiquei bem curiosa pra ler principalmente por essa treta de ter sido considerado "antiamericano", tem muitas chances de eu gostar desse aspecto!

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    1. Li sem saber desse contexto antes, mas particularmente gostei de como o autor abordou a saúde mental do protagonista. Concordo que qualquer história pode ser pesada para alguém, depende muito das experiências e traumas que a pessoa viveu!

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