Crítica: O Convite

Em 2019, a atriz Olivia Wilde lançava seu primeiro filme, Booksmart, longa que acompanha duas amigas frustradas pela falta de experiências em festas e de uma vida social ativa durante o último ano do ensino médio. O filme se destacou pelo humor ácido, que remete ao besteirol Superbad, e pelo drama de amadurecimento que explora os efeitos de uma adolescência tardia. Em O Convite, dirigido por Olivia Wilde, Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) são um casal preso à rotina. O relacionamento está à beira do colapso, mas as coisas podem mudar quando eles convidam casualmente os vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) para jantar.

o convite

A direção revela um controle rigoroso da encenação e, ao mesmo tempo, concede liberdade expressiva ao elenco. Ao estabelecer a casa como palco para o desenvolvimento da história, o filme constrói as reações dos casais tanto pelo que é dito quanto pelo que permanece em silêncio. É como se os pontos de conflito já estivessem definidos, cabendo aos atores explorá-los em cena, revelando uma naturalidade impressionante nas performances.

Ao mesmo tempo, existe um foco emocional muito claro na maneira como o elenco entrega esses conflitos. Um olhar misterioso, a forma de andar e a velocidade da fala demonstram a confiança da direção em seus personagens. O elenco e, consequentemente, a direção sabem exatamente quando falar para garantir impacto, sem deixar que o filme se transforme em uma sequência mecânica de diálogos excessivamente ensaiados.

Essa naturalidade também nasce da forte conexão do casal com a própria casa. Há uma nostalgia impregnada naquele espaço, como se Joe e Angela já não enxergassem o local como um lar, mas como um museu que os mantém empoeirados dentro de um relacionamento tóxico. Não por acaso, os momentos de paz acontecem justamente quando estão separados, ocupando cômodos que lhes oferecem algum conforto. Já não existe a necessidade de performar para agradar o outro, apenas a melancolia de um relacionamento que já terminou, embora ainda permaneça de pé.

A ausência da filha, que foi dormir na casa de uma amiga, também exerce uma presença significativa sobre o espaço. Ela representa o futuro do casal e, justamente por isso, não está no filme. É preciso retirá-la daquela casa para que Joe e Angela consigam revelar a verdadeira natureza do casamento. Como se sua presença fosse incompatível com o estado conturbado da relação dos pais.

Além disso, a casa mostra-se um palco para a comédia, em que objetos da cenografia são usados como ferramentas para conduzir o caos e a estranheza da narrativa. Seja pelo fascínio esquisito de Hawk, vivido por Edward Norton, por tapetes, em que volta e meia ele está no chão em modo de análise, ou pelo surto raivoso de Joe após uma reviravolta envolvendo uma janela, sua esposa e o marido da vizinha.

O humor corporal de Seth Rogen traz uma bomba-relógio humana que nunca explode antes do ponto e que traz um sarcasmo que surpreende com sua sinceridade. No caso de Olivia Wilde, rolam diversas quebras de humor que desmancham a anfitriã perfeita para uma esposa estressada que oferece surtos, ao invés de comida vegana. Soma-se a isso a presença de Edward Norton e Penélope Cruz como Hawk e Piña, casal aparentemente ideal que, aos poucos, faz emergir sentimentos reprimidos de Joe e Angela.

É interessante perceber como, de certa forma, Hawk e Piña funcionam como verdadeiros "exorcistas" desse romance maldito. É através da palavra que vão desatando os nós do relacionamento, colocando para fora todo o caos interno até que ele deixe de existir. Como se o casamento briguento fosse uma força quase animalesca que precisasse ser expulsa para enfim encontrar alguma cura. Ao mesmo tempo, o filme faz questão de revelar que Hawk e Piña também possuem falhas e uma vida bastante excêntrica, elemento que fortalece ainda mais sua comédia de absurdo.

Também é satisfatório perceber que, em uma época marcada por filmes e séries que tratam o sexo como uma piada escrita por um adolescente na puberdade, surja uma obra capaz de provocar risadas sem reduzir o tema ao cinismo ou à caricatura. O sexo, ou a falta dele, vira motivo de humor porque parte da repressão e do desejo acumulado dos protagonistas, levando ambos a perder completamente a compostura. É justamente o contato íntimo que escancara esse tesão reprimido e devolve aos personagens a necessidade de desejar e de serem desejados. 

Em O Convite, a câmera permanece o tempo todo interessada nos atores e em suas ações dentro daquele cenário, muitas vezes recorrendo a planos estáticos que observam apenas suas reações exageradas. O filme entende que, para existir desejo, primeiro é preciso olhar para os corpos. A tela grande do cinema amplia esses gestos e interações, tornando-os ainda mais grandiosos e reafirmando o valor sentimental das narrativas humanas nesses espaços. Assim, Olivia Wilde transforma o cinema em um lugar seguro para desejar.

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