Ler "Um defeito de cor" foi uma jornada e tanto. Já tinha ouvido falar nele, mas conheci a obra mais profundamente em 2023, quando cursava uma disciplina isolada no mestrado de sociologia da UFPE, focada no pós-colonial. De lá para cá, muita coisa aconteceu: ingressei no mestrado da Fundaj, em que pesquisei decolonialidade e me formei mestra em sociologia esse ano. E só agora, nesta semana, finalmente fechei este livro.
SINOPSE
Vencedor do prestigioso Prêmio Casa de las Américas e incluído na lista da Folha de S.Paulo como o sétimo entre 200 livros mais importantes para entender o Brasil em seus 200 anos de independência, Um defeito de cor conta a saga de Kehinde, mulher negra que, aos oito anos, é sequestrada no Reino do Daomé, atual Benin, e trazida para ser escravizada na Ilha de Itaparica, na Bahia.
No livro, Kehinde narra em detalhes a sua captura, a vida como escravizada, os seus amores, as desilusões, os sofrimentos, as viagens em busca de um de seus filhos e de sua religiosidade. Além disso, mostra como conseguiu a sua carta de alforria e, na volta para a África, tornou-se uma empresária bem-sucedida, apesar de todos os percalços e aventuras pelos quais passou. A personagem foi inspirada em Luísa Mahin, que teria sido mãe do poeta Luís Gama e participado da célebre Revolta dos Malês, movimento liderado por escravizados muçulmanos a favor da Abolição.
Pautado em intensa pesquisa documental, Um defeito de cor é um retrato original e pungente da exploração e da luta de africanos na diáspora e de seus descendentes, durante oito décadas da formação da sociedade brasileira. O livro inspirou, em 2022, uma exposição homônima no Museu de Arte do Rio (MAR), com curadoria de Amanda Bonan, Marcelo Campos e da própria Ana Maria Gonçalves.
No livro, Kehinde narra em detalhes a sua captura, a vida como escravizada, os seus amores, as desilusões, os sofrimentos, as viagens em busca de um de seus filhos e de sua religiosidade. Além disso, mostra como conseguiu a sua carta de alforria e, na volta para a África, tornou-se uma empresária bem-sucedida, apesar de todos os percalços e aventuras pelos quais passou. A personagem foi inspirada em Luísa Mahin, que teria sido mãe do poeta Luís Gama e participado da célebre Revolta dos Malês, movimento liderado por escravizados muçulmanos a favor da Abolição.
Pautado em intensa pesquisa documental, Um defeito de cor é um retrato original e pungente da exploração e da luta de africanos na diáspora e de seus descendentes, durante oito décadas da formação da sociedade brasileira. O livro inspirou, em 2022, uma exposição homônima no Museu de Arte do Rio (MAR), com curadoria de Amanda Bonan, Marcelo Campos e da própria Ana Maria Gonçalves.
O primeiro ponto que eu gostaria de destacar nesta obra é a sua estrutura. O livro é dividido em apenas 10 capítulos, mas cada um deles contém diversos "subcapítulos" que funcionam como respiros na leitura. Fora isso, o que temos é um texto corrido. A narradora, Kehinde, nos conta sua trajetória quase sem diálogos; são relatos puros que começam na sua infância e que ocupam páginas e mais páginas de parágrafos densos.
Confesso que essa estrutura intimida de início. Não é um livro que se consiga ler rápido. Cada frase e cada pequena história dentro da trama carrega um peso que exige reflexão. No entanto, a clareza das descrições compensa o esforço, e a escrita é descomplicada. A pesquisa da autora é imensa e se destaca na riqueza de detalhes dos cenários do passado da Bahia, do Rio de Janeiro e de tantos outros lugares por onde Kehinde transita.
O livro aborda temas pesadíssimos, o que é de se imaginar por se tratar do período da escravocrata. Há muita violência verbal, física, sexual. É impossível não sentir uma indignação profunda cada vez que essas violências entram em cena. As situações ficam "ruminando" dentro da gente por um bom tempo, tornando a digestão da obra lenta e, por vezes, dolorosa.
Por outro lado, o que mais me encantou foram as relações de amizade existentes na obra. Por mais que a protagonista se mudasse bastante, ela sempre encontrava pessoas que a faziam se sentir em casa. Além disso, o lado empreendedor e a persistência de Kehinde são fascinantes. Ver a autonomia que ela buscava construir é um contraponto necessário em meio a tanta dor.
Sentada na areia, fiquei olhando o mar e chorando todas aquelas mortes que pareciam estar dentro de mim, ocupando tanto espaço que não me deixavam sentir mais nada. Os olhos ardiam com as lágrimas salgadas, como se fossem mar também, e senti uma solidão do tamanho dele, do tamanho da viagem da África até o Brasil, do tamanho do sorriso da minha mãe quando estava dançando, do tamanho da força com que a Taiwo segurava a minha mão enquanto observávamos o riozinho de sangue de Kokumo." pág. 101
Apesar de toda a potência da obra, senti que da metade para o final o livro perdeu um pouco do tom. O relato passa a ser muito mais direcionado à pessoa específica para quem Kehinde está contando sua história, o que quebra um pouco aquela sensação de conversa que vínhamos tendo com ela.
Outro ponto que me incomodou foi o ritmo das últimas 200 páginas. Mesmo sendo um livro gigante, achei que a autora apressou as coisas no desfecho. Em vários momentos, a própria Kehinde dizia que algo havia acontecido, mas que "não iria explicar". A impressão que fica é que a autora criou uma teia grande demais e, no fim, não deu conta de trabalhar todos os elementos com o mesmo aprofundamento. Talvez a narrativa pudesse ter sido mais enxuta em alguns pontos para garantir que o que ficasse fosse tratado de forma mais uniforme.
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Foi uma jornada longa, que acompanhou toda a minha formação no mestrado e que intercalei com vários outros livros. É uma obra que exige dedicação e capacidade de digerir, mas que oferece um panorama detalhado e necessário sobre a nossa história sob uma perspectiva que dialoguei muito nos meus estudos sobre decolonialidade.
Depois de uma rebelião esses laços ficavam ainda mais fortes, pois a luta unia os pretos e fazia com que se importassem mais uns com os outros, pois muitas vezes a força estava na quantidade de gente reunida em busca de liberdade." pág. 282
E você, já fez alguma leitura que se estendeu por anos? Me conta nos comentários sobre a sua experiência com calhamaços!
ISBN: 978-65-5970-449-1
Editora: Record
Nota: 4/5 ⭐


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