A Odisseia é um poema épico atribuído a Homero que acompanha as aventuras do herói grego Odisseu (Matt Damon) em sua volta para casa após a Guerra de Troia. O guerreiro enfrenta criaturas míticas e deuses em sua jornada épica de retorno onde sua esposa Penélope (Anne Hathaway) o aguarda. O rei de Ítaca descreve sua trajetória esbarrando com seres como o Ciclope Polifemo, as sereias e a feiticeira/deusa Circe.
Talvez seja o melhor filme do Nolan ao lidar com exposição de diálogos. Os personagens estão a todo tempo contando e contextualizando momentos históricos, mas sempre em um tom dramático e fascinado por esses eventos. Tanto rola um tempo para apreciar essas conversas, quanto para contemplar as belas imagens. Ajuda também que o Odisseu, o grande herói do filme, possua uma postura meditativa sobre as coisas. Ao mesmo tempo que ele vive as aventuras, ele observa calmamente e reflete sobre suas ações.
A obsessão do Nolan pelo tempo e a possibilidade de manipulá-lo através dos seus filmes encontra um ponto pacífico nesse longa. A história do Odisseu só é mostrada quando é contada e lembrada. A organização temporal maníaca de Oppenheimer, representando o caos mental do protagonista, é reorganizada aqui. O herói só consegue seguir de verdade quando consegue visualizar o seu passado.
Mesmo a escolha de filmar o longa com câmeras IMAX possui certo simbolismo. Como se fosse preciso uma tecnologia avançada para retratar esse tempo histórico perdido como ele é, e ao mesmo tempo extrair sua dimensão sobrenatural da realidade. As criaturas sempre parecem sair de uma parte alta do canto da tela, invadindo a imagem e assustando os soldados e o público. O tamanho da tela acaba destacando a escala gigantesca em que os personagens se encontram, em que estão perdidos contra as adversidades.
E quando vai para as sequências de diálogo, as câmeras conseguem engrandecer e dar mais textura aos gestos dos atores. O uso constante de close-ups, com a ajuda de um texto mais emotivo, põe em evidência uma dimensão humana em meio à grandiosidade da obra. Mesmo os constantes cortes entre diálogos, com plano contra plano separando os atores em quadros diferentes, fazem sentido com os conflitos pessoais que os personagens lidam entre si. E quando tem que juntar os atores em tela, o filme sabe resolver bem, colocando um objeto para dividir os personagens, causando uma separação emocional na própria imagem (o diálogo entre a personagem de Anne Hathaway com o mendigo é o auge disso).
O filme ainda tem um cuidado com o som, ao destacar a ambiência dos mares, dos trovões e das criaturas. O que acaba ajudando a construir a existência do sobrenatural conectada à natureza. O áudio ensurdecedor estourado da sala IMAX deixa tudo mais imersivo e tenso.
Voltando para o sobrenatural, é interessante como o Nolan, como um cineasta que fugiu de explorar uma fantasia mais aberta à imaginação e ao espetáculo, leva essa frieza para a própria construção do Odisseu. Repete-se a mesma cena da cabeça de uma estátua de Athena sendo cortada, tradições são negligenciadas pelo herói, além das rendições às necessidades humanas que a própria história possui. Mesmo as sequências dos monstros soam como cenas de filmes de terror, como se o sobrenatural quebrasse uma linha natural do mundo, e não fizesse parte dele. Algo que o filme, e o próprio Odisseu, vai se abrindo mais ao naturalizar o sobrenatural.
O filme ainda abraça um sentimento antiguerra que continua a tragédia pensada nos outros filmes do diretor. Em que a guerra é interligada com as ações do homem e com o mal que ele bota para fora a partir da violência. Tanto que a guerra de Tróia é representada duas vezes em duas óticas, uma heroica e outra trágica.
Eu curto como o filme escolhe abraçar os excessos da aventura. O filme até individualiza a presença do espetáculo dentro das habilidades físicas do Odisseu. Chega um ponto que o filme tá mais interessado em entregar uma sequência de ação à videogame, em que vilões surgem do nada de todo o lugar a fim de enaltecer tanto o herói quanto oferecer uma experiência bem estimulante. A falta de explicação de algumas criaturas e uma plena aceitação da fantasia também torna esses eventos ainda mais extraordinários.
É mais um passo na filmografia do Nolan em abraçar mais o espetáculo ao invés de limitar a partir dos diálogos expositivos. Estes, na verdade, ajudam a transformar o filme em uma meditação do épico a partir do íntimo e real.


0 Comentários
Postar um comentário