Sinopse: "Quatro anos se passaram desde a última vez que encontramos nosso herói amigão da vizinhança. Peter Parker não existe mais, mas o Homem-Aranha está no auge de seu jogo de manter a cidade de Nova York segura. As coisas estão indo bem para nosso herói anônimo até que uma série de crimes incomuns o arrasta para uma teia de mistério maior do que qualquer coisa que ele tenha enfrentado. Para enfrentar o que vem aí, o Homem-Aranha não apenas precisa estar em sua melhor forma física e mental, como também precisa estar preparado para encarar as repercussões de seu passado."
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Adoro como o filme se assume como uma aventura procedural isolada. A escolha de passar quase toda a duração na perspectiva do protagonista dá mais peso aos seus dramas e enfatiza o cotidiano frenético vivido pelo herói. Lembra um pouco a estrutura dos jogos do Homem-Aranha da Insomniac, nos quais diversas ameaças surgem uma atrás da outra, e o protagonista precisa responder a todas elas.
Os balanços de teia também refletem esse tom frenético: a câmera assume o ponto de vista do herói e nos faz imergir em suas sequências de voo. Já nos momentos contemplativos, como o balanço com MJ, ela acompanha os personagens de forma mais lenta, enaltecendo o tom romântico e melancólico da cena. O filme ainda preserva a estética cartunesca iniciada nos longas anteriores, mas abandona a movimentação travada em favor de acrobacias mais leves e flexíveis. Isso beneficia as cenas de ação, que apresentam uma coreografia inspirada em filmes de artes marciais e exploram muito bem os poderes do Homem-Aranha. Em vários momentos, parece um videogame do personagem, já que novas habilidades surgem constantemente e Peter precisa aprender a controlá-las e aceitá-las, tal qual um jogador pegando o controle de um PS5 pela primeira vez e descobrindo como balançar pelas ruas de Nova York.
Só é uma pena que as cenas de ação sejam limitadas pela duração e, por vezes, soem seguras demais para a escala proposta. Seja em uma luta contra o Hulk, que evita danos maiores à cidade, ou em uma perseguição que entrega imagens empolgantes do Homem-Aranha cruzando Nova York, mas chega ao chão cedo demais. Da mesma forma, os diálogos ficam presos à fotografia baseada na dinâmica de plano e contraplano, em que a montagem separa constantemente os personagens em enquadramentos distintos. Isso enfraquece trocas mais íntimas, que pediriam uma câmera mais interessada em reuni-los no mesmo espaço. Felizmente, essas conversas recebem tempo suficiente para que os personagens desabafem e coloquem seus sentimentos para fora, resultando em sequências bastante emocionais.
MJ finalmente ganha mais personalidade e um papel melhor contextualizado, em vez de existir apenas para reagir às decisões de Peter. Como acompanhamos a maior parte da história pela perspectiva dele, o filme imprime uma melancolia à separação brutal do casal e trata de forma realista o peso da decisão de esconder a verdade da mulher que ama durante cinco anos. Já Ned Leeds continua funcionando como alívio cômico, mas também desperta a nostalgia de uma vida simples que Peter Parker não tem mais.
Acho que o filme passa do ponto na comédia, interrompendo frequentemente cenas frenéticas e dramáticas para encaixar uma piada. Parece ter medo de mergulhar em emoções mais sombrias e prefere suavizar o clima para não cansar o público. Na prática, porém, isso impede que a gravidade dos acontecimentos seja plenamente sentida. Por outro lado, a obra acerta na comédia física do Homem-Aranha, constantemente envolvido em situações constrangedoras. Uma delas, em especial, faz referência à excelente cena de Homem-Aranha 2, de Sam Raimi, em que o herói, sem poderes e à paisana, precisa pegar um elevador. Ainda há a dinâmica buddy cop com o Justiceiro, participação especial da vez, que rende brigas cheias de sarcasmo e faz a dupla parecer um casal de velhos rabugentos. O próprio Justiceiro está muito mais à vontade como anti-herói e finalmente escapa da caricatura excessivamente trágica vista no especial do Disney+, transformando-se em um verdadeiro brutamontes de filme de ação, mas sem abrir mão de momentos sensíveis ao lado do nosso escalador de paredes.
A seguir, spoilers sobre o final e personagens misteriosos.
Sobre a personagem misteriosa de Sadie Sink, vulgo Jean Grey, famosa integrante dos X-Men, adoro como seus poderes são retratados como uma espécie de possessão que salta de pessoa em pessoa, rendendo momentos bastante brutais com o uso da telepatia e do controle mental. Isso funciona muito bem na construção da tensão ao envolver personagens importantes para Peter Parker. Há até uma subversão interessante de um momento íntimo em favor do horror provocado pelas habilidades da vilã.
Só é uma pena que, por conta das demandas da Marvel, o filme precise gastar um tempo considerável contextualizando sua origem. A transição entre as duas faces da personagem soa protocolar e desvia a atenção do Homem-Aranha para estabelecer uma nova heroína para o futuro da franquia. Além disso, o longa não conclui propriamente o arco de Jean e acaba criando uma resolução incoerente para sua relação com o Aranha. O filme evita oferecer um desfecho satisfatório porque ainda não é o momento de apresentar toda a mitologia ligada à figura. Fala-se da importância da coletividade e de não agir sozinho, mas é irônico que, dentro desta história, ela termine exatamente como começou: sozinha.
Já no caso de Peter Parker, o filme repete uma característica dos anteriores ao evitar explorar profundamente sua vida pessoal e privilegiar o lado espetacular do herói. Ainda assim, é justamente aqui que Brand New Day funciona melhor. Ao reduzir o núcleo afetivo de Peter a Ned e MJ, a narrativa enfatiza o desespero do protagonista, cujo único respiro emocional passa a ser assistir aos vídeos dos antigos amigos no TikTok. Em vez de correr para a próxima sequência de ação, o filme aproxima, aos poucos, a vida do homem e do super-herói, até o ponto em que o maior momento de leveza de Peter acontece justamente quando está vestido como Homem-Aranha. O filme sugere que é possível ser o Homem-Aranha e, ainda assim, ser amado.
O Homem-Aranha evita se apresentar como Peter Parker, como se estivesse fugindo desse nome. Por isso, a grande catarse emocional chega apenas na última cena, quando ele finalmente se apresenta a Ned e permite reconstruir essa conexão.
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O filme, às vezes, dedica atenção demais a diálogos expositivos sobre o estado emocional de Peter e parece não confiar totalmente na atuação mais intimista de Tom Holland. Em vários momentos, os personagens verbalizam exatamente o que ele está sentindo. É algo que The Batman resolveu melhor ao carregar quase todo o trauma de Bruce Wayne nas expressões faciais de Robert Pattinson.
No geral, Homem-Aranha: Um Novo Dia acerta ao abraçar a jornada emocionante de Peter Parker. Peca quando se rende à saturada fórmula Marvel e a uma direção insegura (ou, quem sabe, segura demais). Ainda assim, consegue ser espetacular ao valorizar aquilo que sempre fez do Amigão da Vizinhança um personagem tão especial.
Nota: 4/5 ⭐


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