Crítica: Coração Partido (Por Kalil Vinicius)

Baseado no romance best-seller de Anna Jane, “Coração Partido” acompanha Polina, uma adolescente que tenta recomeçar a vida em uma nova cidade, mas logo se torna alvo de bullying na escola. Tudo muda quando Bars, o aluno mais temido e misterioso do colégio, oferece proteção em troca de que ela siga suas regras. O que começa como uma amizade de conveniência evolui para uma relação intensa e emocionalmente complexa, marcada por dependência, vulnerabilidade e uma crescente necessidade de pertencimento. Distante das fórmulas tradicionais do romance adolescente, o filme explora os limites entre afeto, controle e obsessão.


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Até acho que o filme consegue se desenvolver minimamente, no sentido de que, mesmo com muitos acontecimentos, consegue situar bem o espectador nos eventos que está abordando, sem tornar a narrativa confusa. É a jornada básica da aluna nova na cidade enfrentando os desafios da adolescência, com características do tropo “enemies to lovers”, bastante popular em fanfics e livros de romance, do qual o filme é uma adaptação.
O problema é que o filme nunca assume, até o final, os comentários que pretende tecer sobre essas relações. Polina sofre bullying dos colegas de classe e é obrigada a namorar um bad boy para ser protegida, mas essa proteção vem acompanhada de condições, transformando o acordo em uma relação de submissão. Eu até gosto de como Polina se impõe em vários momentos, mas soa contraditório o modo como a direção de Michael Vaynberg encena os momentos de romance entre os dois como algo delicado e romântico.
O primeiro beijo de Polina, por exemplo, é representado como uma típica sequência romântica na chuva, quando, na prática, foi um beijo roubado e manipulado por Bars para construir a imagem farsante desse casal. Em determinado momento, ele chega a admitir que propôs o acordo de proteção apenas para que os dois namorassem. Além disso, o próprio personagem é constantemente justificado por flashbacks rasos sobre seu passado com o pai e, em dado momento, o protagonismo de Polina é sacrificado para que possamos acompanhar a trajetória dele.
O filme ainda tenta criar ligações entre os amigos e rivais do casal, mas essas relações soam forçadas e convenientes. A intenção parece ser representar a violência do ambiente doméstico e escolar como algo pesado e frio, como de fato é, mas a maneira como essas situações são encenadas e repetidas acaba soando fetichista.
Isso faz com que os personagens não pareçam palpáveis dentro do mundo apresentado pelo filme. Parece que “Coração Partido” gosta de humilhá-los para dar a impressão de estar fazendo uma crítica inteligente ao bullying e ao abuso, quando, na verdade, tudo soa gratuito. Visualmente, o longa ainda aposta em algumas montagens contemplativas, com a imagem meio borrada, além de sequências de perseguição picotadas, tentando replicar uma estética jovial muito presente em edits de TikTok. Na execução, porém, tudo parece deslocado, principalmente porque o filme não assume essa estética até o fim.
Para finalizar, é interessante como o título “Coração Partido”, ou “Your Heart Will Be Broken”, no original, ganha um significado tão abrupto dentro do filme. Surge uma trama aleatória que parece ter sido inserida porque a equipe de roteiristas lembrou que precisava de um encerramento dramático para justificar o nome da obra.

PS: É engraçado como, em dado momento, Polina diz que ama viajar de avião, mas, no filme, só viaja de trem.

PS2: Também é engraçado como, do nada, uma das amigas do grupo de Polina simplesmente some do filme e retorna no final ao lado do grupo de valentonas que inferniza as meninas. Ela fazia parte do grupo?

Era tudo encenação? Quem sabe…

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