Crítica: O bosque selvagem (por Kalil Vinicius)

A história acompanha a adolescente determinada Prue McKeel, que embarca em uma missão desesperada de resgate depois que seu irmão caçula é sequestrado por um bando de corvos. Acompanhada por seu colega de classe desajeitado, mas leal, Curtis Mehlberg, Prue navega por um mundo habitado por animais falantes, bandidos e figuras poderosas movidas pela dor e pela ambição.
o bosque selvagem

Quanto mais o filme adentra o universo mágico de Wildwood, mais revela sua disposição para explorar temas complexos. Pode soar arrogante e pretensioso buscar seriedade em uma animação voltada para toda a família, como se isso exigisse um distanciamento do que é bobo, mágico e inocente. Mas O Bosque Selvagem, ou Wildwood, demonstra que essas qualidades não são incompatíveis.
A fantasia permite à animação explorar as consequências do real. Os personagens lidam com o medo da perda, do trauma e do futuro a partir de suas interações com a magia. Quando parece que está tudo bem e que a dupla de irmãos está apenas passando um tempo de lazer juntos, surge um bando de corvos, evocando o clássico Os Pássaros, de Hitchcock, e levando o irmão caçula para o mundo mágico. A maneira como a câmera acompanha Prue pedalando em busca do irmão confere fluidez à movimentação e fisicalidade à cena. Independentemente de ser um filme infantil, a sequência nos faz acreditar que o bebê pode, sim, cair dos céus.
A dinâmica nessa realidade remete a uma partida de RPG de mesa, em que qualquer escolha e a sorte com os dados podem ajudar ou prejudicar os personagens. Eles precisam se adaptar ao ambiente e entrar em contato com diversos seres e lugares que tornam esse universo muito mais vivo. Animais falantes, pássaros gigantes e grupos de bandidos revolucionários são elementos comuns nesse tipo de história, mas o filme escolhe focar na fascinação e na surpresa das pessoas comuns diante do extraordinário, garantindo maior imersão naquele universo. Além de associar a fantasia a elementos reais, essa abordagem rende cenas engraçadas, como a constante associação de um grupo de místicos a um movimento hippie.
Talvez a melhor personagem seja justamente Alexandra, a governadora viúva, que transita entre a figura materna cuidadosa e a tirania alimentada pela tragédia. Ela remete à Feiticeira de As Crônicas de Nárnia e consegue impor sua presença por onde passa, colocando seus adversários em posições submissas aos seus interesses. Ao aprofundar o passado da tirana, o filme não hesita em ilustrar eventos traumáticos que reforçam o perigo daquele mundo.
Quando chega ao clímax, o longa assume a postura de um épico à O Senhor dos Anéis e suja as mãos de seus heróis para fazer o bem prevalecer. Não fica preso a uma postura falsamente moralista de redenção, mas reconhece o que é necessário para enfrentar o mal. Há mortes, sangue e violência que sujam aquelas figuras em stop-motion. Os heróis comuns caminham pelo campo de batalha apesar de sua pequenez diante da guerra. O filme não tenta proteger os personagens, nem o espectador, das consequências de um conflito entre o bem e o mal, como muitos blockbusters live-action fazem. Não se trata de uma guerra sádica, repleta de corpos à Game of Thrones, mas de uma violência cuja verossimilhança está na maneira como as pessoas comuns reagem aos acontecimentos.
No final, senti como se estivesse terminando de ler O Hobbit ou assistindo a O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei: embora o bem prevaleça, as marcas da violência permanecem em seus protagonistas. O contato com o extraordinário se torna, assim, um catalisador para o crescimento dos jovens. O Bosque Selvagem demonstra que animações voltadas para toda a família podem abordar os problemas do mundo real sem abrir mão da fantasia. Afinal, também existe verdade no lúdico e bobo.

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