Considerando o tempo em que vivemos, acho que mais do que nunca é preciso buscar entender o cenário econômico, político e social através de autores que debatem a desigualdade nos mais diversos lugares do mundo. Aqui temos um economista francês, Thomas Piketty, falando do que ele chama de países "desigualitários", na defesa de um "socialismo participativo, democrático e ecológico" (p. 11). Mas será que ele consegue trazer algo novo para essa discussão?
SINOPSE
Em Natureza, cultura e desigualdades, Thomas Piketty apresenta uma síntese de seu trabalho abordando temas como educação, herança, patrimônio, impostos, taxação de riquezas, aquecimento global e dívida pública, e analisa quais fatores exercem um impacto significativo na marcha dos países à igualdade.
A depender da sociedade e da época, a natureza das desigualdades possui causas muito diversas. Para compreender esse fenômeno, o autor se volta para a história, para as culturas humanas e, principalmente, para as mobilizações políticas, que estão atreladas a trajetórias socioeconômicas, civilizatórias ou religiosas.
Este Natureza, cultura e desigualdades torna acessível a um público mais amplo o pensamento do economista francês que vem fazendo importantes contribuições históricas. Com tom mais direto e prosaico, Thomas Piketty traz dados sólidos e exemplos concretos para a construção de uma realidade sustentável e justa para todos.
O autor tem uma linguagem bem didática, e divide o livro entre capítulos que tratam de desigualdade de renda, de patrimônio, de gênero, além de tratar da ascensão do Estado social, igualdade de direitos, impostos e meio ambiente. Tudo isso em um livro de menos de 100 páginas. E é aí que está o problema.
Vejam bem, eu até acho que o livro consegue cumprir o papel de apresentar certos conceitos a quem é leigo em economia. Entretanto eu vejo como uma escolha muito arriscada tentar enfiar tudo o que citei em um livro só. Acaba que tudo fica muito superficial, e isso me incomodou bastante.
Além disso, a própria linguagem didática do autor chega a gerar certo incômodo por ser repetitiva. Nas primeiras trinta páginas ele fez a mesma comparação três vezes para explicar a análise de dados, mesmo tendo ficado bem claro depois da primeira vez em que ele explicou. Ao mesmo tempo, alguns conceitos foram jogados sem muito aprofundamento, como quando ele usa a expressão "ao contrário do que alguns afirmam" (p. 15) para introduzir uma ideia. Alguns quem, meu amigo? Eu mesma nunca vi ninguém afirmar aquilo que ele disse, e gostaria que referências fossem utilizadas para sustentar seu argumento. O mesmo acontece quando ele fala sobre as mudanças na economia da China, citando uma "explosão de remunerações altíssimas recebidas pelos homens" (p. 31), sem explicar pelo quê isso se deu.
É sempre assim: os agentes dominantes da história têm memória curta, sobretudo quando lhes convém. Acredito, contudo, que devemos lutar contra essa amnésia histórica." (p. 78)
O livro tem os seus méritos, e como eu disse no começo, acredito que pode trazer uma base interessante para quem está começando a ler sobre economia. Mas se você já é das ciências humanas e/ou sociais aplicadas, ou um entusiasta do tema, talvez essa não seja uma leitura interessante para você. O autor é famoso por vários outros livros, como "O Capital no século XXI" e "Uma breve história da igualdade", e o fato de eu não ter apreciado tanto "Natureza, cultura e desigualdades" não me impede de ler outras obras dele. Só espero encontrar argumentos mais fundamentados e um aprofundamento de suas teorias.
Editora: Civilização Brasileira
ISBN: 978-65-5802-144-5
Nota: 2,5/5⭐


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