O que você faria se descobrisse que existe alguém exatamente igual a você? Como reagiria ao saber que uma pessoa com a sua aparência vive por aí, sem que vocês sequer se conheçam? Essa é a situação que José Saramago apresenta em O homem duplicado, romance que acompanha Tertuliano Máximo Afonso, um professor de História que descobre ter um sósia ao assistir a um filme.
SINOPSE
O professor de história Tertuliano Máximo Afonso descobre, certo dia, que é um homem duplicado. Ao assistir a um vídeo, ele se reconhece em outro corpo, idêntico ao dele próprio: um dos atores do filme é seu sósia. Os desdobramentos dessa história são imprevisíveis. Mas este romance de José Saramago, esclareça-se logo, não tem nada a ver com clonagem ou outras experiências de laboratório. O que está em jogo é a perda de identidade numa sociedade que cultiva a individualidade e, paradoxalmente, estabelece padrões estreitos de conduta e de aparência.
Os romances do escritor português retratam uma época de transformações que, para boa parte da humanidade, resultam mais em perdas que em ganhos. Em Ensaio sobre a cegueira , os personagens perdem a vista, sinal de um tempo em que todos parecem estar cegos. Em A caverna , artesãos perdem o emprego, incapazes de sobreviver à sociedade de consumo. Em O homem duplicado , José Saramago constrói uma ficção extraordinária, apoiada numa questão extremamente atual e inquietante: a perda de identidade no mundo globalizado.
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Tertuliano é um homem insatisfeito com a própria vida, e isso fica evidente desde o começo da história. Ele parece estar sempre meio desanimado, preso à rotina e sem grandes expectativas. Quando descobre a existência de um homem idêntico a ele próprio, porém, essa situação muda, e o que poderia ser apenas uma curiosidade acaba se tornando uma obsessão. A premissa me interessou bastante, e eu ficava esperando para ver até onde Saramago levaria essa história.
Esta foi a minha terceira leitura do autor, então já estou mais familiarizada com seu estilo de escrita. Gosto muito da maneira como ele conversa com a própria narrativa, fazendo comentários sobre o que está contando, retomando acontecimentos anteriores e até questionando as escolhas que faz ao narrar. Em O homem duplicado, há momentos em que o narrador comenta, por exemplo, que o fato de termos começado a história acompanhando um dos homens não significa que ele seja necessariamente o nosso preferido. Acho interessante essa forma de chamar a atenção para a construção da própria história, como se o narrador estivesse conversando diretamente com a gente enquanto conta o que aconteceu.
Apesar de ter gostado bastante do livro, achei a leitura meio arrastada ali pela metade. Saramago tem uma tendência a se deter em determinadas reflexões, fazer desvios e dedicar bastante espaço a questões que, em alguns momentos, poderiam ser desenvolvidas de maneira mais concisa. Isso acabou tornando a leitura um pouco cansativa, mesmo com uma história que continuava despertando minha curiosidade. Ainda assim, consegui ser surpreendida pelos caminhos que a história tomou, e acho que isso fez diferença na minha experiência com o livro.
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Uma coisa que me incomodou foi sentir que algumas questões que me pareciam óbvias a respeito da duplicação não foram discutidas. Fiquei esperando que o autor explorasse certas hipóteses, mas ele não pareceu muito interessado em seguir por esse caminho. Talvez tenha sido intencional, uma escolha de não se deter nas explicações mais previsíveis, mas senti falta de ver essas possibilidades ao menos consideradas ao longo da história.
Também gostaria de ter conhecido melhor alguns dos personagens. Até Antônio Claro, o homem que é fisicamente idêntico a Tertuliano, me pareceu pouco explorado. Considerando a importância que ele tem para o enredo, queria ter visto mais de sua perspectiva e de como ele lida com a situação. Os personagens secundários também poderiam ter recebido mais espaço, porque senti que havia possibilidades interessantes ali que não foram desenvolvidas tanto quanto eu gostaria.
Li na orelha do livro que a obra discute a "sociedade que cultiva a individualidade e, paradoxalmente, estabelece padrões estreitos de conduta e de aparência". Honestamente, não foi uma questão que percebi com tanta clareza durante a leitura. Consigo imaginar uma relação entre esse tema e o incômodo de descobrir que existe alguém exatamente igual a você, como se a própria singularidade pudesse ser colocada em dúvida. Ainda assim, não senti que essa discussão estivesse tão evidente.
Posso dizer que gostei de O homem duplicado, mas esperava um pouco mais. A ideia central é muito instigante, e a escrita de Saramago continua sendo um dos pontos altos da leitura. Por outro lado, o ritmo irregular e a sensação de que alguns personagens e questões poderiam ter sido mais explorados fizeram com que o livro não me conquistasse por completo.
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ISBN: 978-8535930368
Editora: Companhia das Letras
Nota: 3/5 ⭐


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