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Resenha: As Mães (Brit Bennett)

 Acredito que todo leitor já deve ter comprado um livro por impulso só por ele estar com um grande desconto. Foi o que me fez comprar "As Mães" há uns dois anos atrás, por apenas R$4,90, mesmo sem saber sobre o quê o livro se tratava. Comprei, guardei na estante, nunca dei muita bola. Até que resenhas do livro começaram a pipocar nos perfis literários, junto com ótimos comentários fora do país sobre outro lançamento da autora, The Vanishing Half. Foi aí que despertei pra a preciosidade que eu tinha na estante e decidi ler logo esta obra da Brit Bennett, que é o seu romance de estreia. 

capa as maes

SINOPSE

Em uma comunidade negra e cristã no sul da Califórnia, Nadia Turner, uma garota bonita, obstinada e ainda marcada pelo recente suicídio da mãe, será a primeira da família a cursar uma universidade, mas, antes de deixar sua cidade natal, ela se envolve com o filho do pastor da igreja, Luke Sheppard. Aos vinte e um anos, Luke é um ex-atleta que trabalha como garçom depois que uma grave lesão o afastou dos campos. Os dois são jovens e não oficializam o relacionamento, mas o segredo que resulta desse romance terá consequências maiores do que eles imaginam.
Anos depois, eles ainda vivem à sombra das escolhas da juventude e da insistente dúvida: e se tivessem feito diferente? As possibilidades do caminho não tomado se tornam uma sombra implacável.


livro as maes

Este livro é sobre laços. Laços de uma adolescente com a sua recém falecida mãe, laços das pessoas com a cidade em que vivem, laços de amor, de amizade e também laços que se desfazem. A protagonista, Nadia, é uma personagem um tanto misteriosa, que vai aos poucos nos mostrando os motivos para que faça as escolhas que faz. Já Luke, com quem ela se envolve logo no início do livro, se apresenta como um cara simples, fácil de decifrar. Mas com o decorrer da leitura, percebemos que também há profundidade nele.
Luke é filho do pastor da Upper Room, igreja que o pai da Nadia também frequenta. A congregação é majoritariamente negra, assim como os protagonistas da história. A temática racial tem bastante importância na obra, permeando outros temas abordados nela, como relações de parentesco, aborto e privilégios.
Garotos negros não podem se dar ao luxo de ser irresponsáveis, ela tentava explicar ao filho. Garotos brancos irresponsáveis se tornam políticos e banqueiros, garotos negros irresponsáveis morrem." p. 61

Além dos protagonistas já citados, temos mais uma importante personagem na obra: Aubrey, a melhor amiga de Nadia, e que assim como ela sofre com a ausência da mãe (por razões diferentes). Os anos se passam e esse trio constrói a trama central do livro, que envolve um segredo que impacta cada um deles de forma diferente. Acompanhamos Aubrey, Nadia e Luke do fim da adolescência até a vida adulta, e o desenvolvimento deles nos faz sentir como se realmente os conhecêssemos. 

as maes folha de rosto

Mas o que dá nome a este livro não é nenhuma destas personagens, e sim um grupo peculiar de senhoras que frequentam a Upper Room. Elas aparecem no livro quase que como uma entidade, formando um personagem em uníssono: os trechos em que elas aparecem são narrados na primeira pessoa do plural, e esse "nós" traz a sensação de que elas são todas, mas também nenhuma. 

Nós já fomos jovens. Embora não pareça. É claro, quem nos vê hoje nem imagina como éramos - a flexibilidade e o vigor se foram, a pele do rosto e do pescoço caiu. É o que acontece quando envelhecemos. Tudo cai, como se o corpo estivesse se aproximando de onde veio e para onde vai retornar. Mas já fomos garotas, e isso significa que já amamos homens de merda. Não há maneira cristã de dizer isso. Existem dois tipos de homens no mundo: homens de verdade e homens de merda." p 86

Essas senhorinhas são o completo clichê de idosas que frequentam a igreja: adoram fofocar, e sabem de tudo o que acontece na comunidade. Observadoras, nos contam em suas narrações sobre fatos que muitas vezes ainda não nos estavam claros, ou revelam partes do passado dos personagens enquanto rememoram os fatos em suas conversas. O livro não seria o mesmo sem "As Mães" de Upper Room. 

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autora brit bennett

Sobre a escrita da autora, muitos elementos me chamaram a atenção. Há trechos do livro que ganham sentido só depois, pois são mencionados aos pouquinhos por núcleos diferentes do enredo, o que gera várias reações do tipo "aaah, então é isso!". Algo que me incomodou um pouco na narrativa foi o uso excessivo de perguntas, mesmo em trechos mais descritivos. Entendo que a adolescência e o início da idade adulta trazem muitos questionamentos, mas isso acabou se tornando um pouco cansativo durante a minha experiência de leitura. Outro aspecto que me deixou um pouco decepcionada foi o final aberto. Não que eu seja contra finais abertos; alguns conseguem ser feitos com primazia, mas na minha opinião este não foi o caso. 

Recomendo muito essa história para quem está buscando uma leitura envolvente, que te deixe imerso na vida dos personagens e provoque um misto de emoções. Agora entendo o motivo de a Brit Bennett ser tão elogiada, e anseio pela oportunidade de ler outras obras dela.

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Nota: 4/5⭐

Editora: Intrínseca

ISBN: 978-85-510-0196-7

1 Comentários

  1. Malu, você pagou MUITO BARATO MESMO! Quando vejo um livro nesse valor já penso "nossa, deve ser uma porcaria, isso", mas não, foi o combo bom, bonito (com essa capa belíssima) e barato, mesmo. Fazia tempo que eu não ficava TÃO curiosa em relação a um livro que li resenha, viu... Fiquei querendo saber mais sobre as três personagens principais, sobre esse grupo que dá título à história, tudo!
    Tá aqui anotadinho pra quando surgir uma oportunidade de comprar, muito obrigada pela indicação!

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